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Entre Oriente e Ocidente:
Canções de Arco-íris sobre os Céus da Dança-Teatro

Resenha do espetáculo Rainbow Melodies da Rajyashree Ramesh Academy for Performing Arts, no Staatliche Museen-Dahlem, Berlin, 10 de Novembro de 2001

por Ciane Fernandes
tradução Valerie Alvarez

"... o significado não é descoberto, escavado das profundezas ocultas do passado, mas construído retroativamente, do futuro para o passado." (Slavoj Zizek, 1991)

O termo "dança-teatro" tem sido cada vez mais usado no ocidente, especialmente nos últimos dez anos. O termo foi revivido por um grupo de coreógrafos alemães contemporâneos - como Pina Bausch, Gerhard Bohner, Reinhild Hoffmann, Hans Kresnik, e Susanne Linke, no início dos anos 70. A dança-teatro contemporânea alemã fragmenta a linguagem de ambos, dança e teatro, incluindo diferentes possibilidades de movimentos - funcional, técnico, cotidiano, teatral, ilustrativo, etc. - interagindo com diferentes formas de arte. Hoje, coreógrafos de várias partes do mundo usam o termo para descrever performances que estão além das apresentações de dança e teatro convencionais, usando uma mídia diferente para quebrar as expectativas e abrir a percepção do público.

Interrompida pela 2a. Guerra Mundial e pelo nazismo, a dança-teatro alemã de fato remonta à época do austro-húngaro Rudolf von Laban (1879-1958), no início dos anos vinte. Laban usou o termo para descrever peças teatrais incorporando ambos os movimentos, o cotidiano e o "puro", na forma narrativa, cômica ou mais abstrata, baseado em correspondências harmoniosas entre a dinâmica dos movimentos e a trajetória espacial. Desde então, seu sistema se desenvolveu no que hoje chamamos de Análise Laban de Movimento (LMA- Laban Movement Analysis), uma das maiores referências nas artes cênicas contemporâneas - educação, composição e estética/teoria - bem como nas terapias corporais.

Enquanto as teorias de Laban apresentavam uma integração entre "pensamento, sentimento, ação e existência" (Bartenieff, 1970) em danças expressivas e compreensíveis, a dança-teatro contemporânea propõe uma identidade humana fragmentada e a ruptura dos significados claros da dança. Tais tendências referem-se à estética e às atitudes modernas e pós-modernas, respectivamente. Entretanto, este novo século requer outras abordagens. A identidade atual está progressivamente relacionada a termos como multi-culturalismo, inter-culturalismo, e transculturalismo; e culturas tradicionais vêm conquistando atenção especial. Mesmo Pina Bausch, considerada como a "mãe" da dança-teatro contemporânea alemã, tem explorado esta tendência. Suas últimas peças tem sido desenvolvidas com pesquisa "in loco" sobre lugares ao redor do mundo, incluindo a Índia (1994) e Brasil (2000). De volta à Wuppertal, depois de sua turnê pela Índia, seus dançarinos - originalmente de mais de dez países diferentes de quase todos os continentes - tiveram aulas em dança clássica indiana por mais de 6 meses, como parte do seu treinamento técnico diário.
Realmente, tradições não são "escavadas nas profundezas ocultas do passado" (Zizek, 1991), e não precisam ser inseridas em novas formas com o propósito de se tornarem contemporâneas. O passado já está presente no futuro da tradição, no fluxo da exploração e desenvolvimento dos seus próprios princípios em diferentes corpos e lugares. A interação natural e inevitável entre tradição e "progresso" está contida no aprimoramento da tradição.

Este é o caso de uma dança-teatro tão antiga quanto os próprios Deuses. A forma da dança clássica indiana Bharatanatyam não precisa correr atrás de atualização. Sua beleza transcende as palavras e sua simples apresentação no ocidente já consiste em inovação e multiplicação de seus significados. Algumas das performances de Bharatanatyam que assisti são interrompidas por explanações lineares esclarecendo as danças apresentadas. De qualquer forma, durante a dança, não consigo me lembrar do significado de cada gesto, explicado anteriormente e, ao invés disso, aprecio a beleza e a complexidade da apresentação.
Depois de mais de dez anos de treinamento em dança-teatro alemã, tenho tido a oportunidade de estudar esta forma rica e tradicional de dança indiana sob a tutela da mestra Rajyashree Ramesh. Durante suas aulas, não posso evitar a associação entre seus comentários técnicos e estéticos com específicos termos de Análise Laban de Movimento (LMA), desde princípios de cinesiologia até qualidades expressivas e trajetórias espaciais. Em cena, corpos interculturais - de ancestrais alemães, franceses, indianos e vietnamitas - demonstram o resultado de um processo de treinamento primoroso e artisticamente hábil.

Rainbow Melodies (Canções de Arco-íris) é uma apresentação do estilo Bharatanatyam tradicional com poéticos comentários "cósmicos", ao invés de interrupções explicativas. A peça, apresentada pela Rajyashree Ramesh Academy for Performing Arts no Staatliche Museen-Dalem (Berlin), em novembro de 2001, tem os planetas do Sistema Solar como tópico principal. Estórias dos diferentes deuses indianos, tradicionalmente interpretados em Bharatanatyam, estão implícitas nas descrições dos planetas. Entre as danças, pequenos textos sobre cada planeta são ditos mais como um suspiro do que como uma explanação didática, num cenário escuro, preparando o espírito da platéia para cada coreografia. Slides com linhas e formas abstratas e coloridas são projetados por todo o teatro, incluindo o espaço da platéia. Com maquiagem e figurinos tradicionais, os dançarinos percorrem todas as áreas do palco, entre distintas luzes e cores - inclusive a escuridão - em perfeita sincronia.

Por trás de tanta beleza, nada é arbitrário: sons, gestos e imagens correspondem a humores e planetas específicos. Associando a astrologia ocidental e a estética e filosofia indianas, Rainbow Melodies estabelece um paralelo entre cada sílaba da música clássica indiana com uma cor, um humor e um planeta. O planeta Mercúrio representa o movimento rápido e o pensamento racional, e é associado à sílaba musical Ga ou gandhara, a cor amarela e o Jathiswaram em raga Thodi, em padrões complexos de ritmo matemático que requer dos dançarinos rapidez e concentração mental. Associado com Ma ou madhyama e com a cor azul, as qualidades de tradição e concentração de Saturno, mas também de restrição, inibição e dor, medo e isolamento, são interpretadas como a vida das mulheres nas diversas sociedades. Vênus - o planeta do amor e da harmonia - é associado com Da ou daivata e com a cor índigo, em danças tradicionais retratando diferentes relacionamentos com Krishna. Em raga Kapi, a amante mas também exasperada Yashodha como mãe de Krishna, é retratada no relacionamento mãe-filho. Em raga Mohana alguém vive a experiência de aspiração de Nayika ou Radha, no seu amor por Krishna.


Sob a maestria da melodia tocada por Nadkishor Muley e S. V. Giridhara, ao vivo, Rajyashree Ramesh e suas dançarinas flutuam pelo espaço num compasso perfeito, silhuetas claras, faces graciosas e gestos manuais. Além da apurada técnica, as dançarinas usam completamente o espaço do cenário do Museen-Dahlem, pela primeira vez incluindo os dois pilares geralmente escondidos atrás das cortinas. A atmosfera criada pela concentração das dançarinas e músicos, a iluminação (Guenter Ries), e tal "cenário" - incluindo pilares e projetando slides por todo o teatro - recebe o público como se em um templo. Nossa atenção é capturada pela sábia alternância das cenas - grupo e solo, composições de dança abstrata e outras mais teatrais, com expressividade rápida e forte ou mais intimista. O vigoroso e alerta movimento de Marte - associado com Sa ou sadja, retratado pela bela e vaidosa Satyabhama tentando seduzir Krishna a casar-se com ela - sob vermelhas imagens abstratas, alternam-se com misteriosas e profundamente comoventes seqüências da Lua sob abstratas curvas de cor violeta - representando pressentimentos, medo e incertezas, memórias e fantasias, simpatias e o subconsciente, associados à Lua e suas diferentes fases.

Ao lado desta rica interação entre as Artes, Rainbow Melodies tem outros princípios em comum com a dança-teatro alemã. Na teoria Laban, tudo ao redor de nós está em constante transformação: crescendo e decompondo-se, separando-se e unindo-se, vibrando e oscilando, em ritmo e fluindo - no mar, no paraíso, na Terra e, abaixo, nos planetas, nas marés, nos minerais e nos cristais (Hodgson and Preston-Dunlop, 1990). Laban desenvolveu um complexo sistema de Escalas Espaciais, nas quais o corpo se move ao redor de pontos no espaço com Formas Cristalinas - o Octaedro , o Cubo, o Icosaedro, etc.
Em Rainbow Melodies, exatamente como na teoria da Harmonia Espacial de Laban, as trilhas conectam pontos desde as composições químicas do corpo até os planetas. Situando movimentos tradicionais de Bharatanatyam num contexto contemporâneo, Rajyashree descreve completas Escalas do Icosaedro, como a Escala de Anel (semelhante aos anéis de Saturno), ou surpeendentemente desliza numa profunda diagonal do Cubo na direção Baixo-Direita-Atrás até ficar sobre seus joelhos, junto com a carismática Vinodha Thambipillai e escultural Karen Taguet. Após 10 de Novembro de 2001, ninguém em Berlin pode ousar reduzir a Dança Clássica indiana a algumas expressões faciais e gestos manuais realizados por um corpo posicionado, na maior parte do tempo, no eixo vertical!


Na última cena, a Tillana em raga Purvi é dançada nas sete sílabas melódicas da música indiana, ressonando o som do Universo - o pranavakara 'OM' - representando o absoluto ou Brahman, o puro, aquele sem atributos (nirupama, nirmala, nirasha, niranjana, nirguna, etc. ), a energia sem forma física - perceptível ao ouvido humano através da música, exatamente como as sete cores da luz branca são perceptíveis para os olhos através do arco-íris. Em seu espectro, as canções deste arco-íris (Rainbow Melodies) afinam o corpo, as estrelas, a mitologia e a arte. Sob um súbito e poderoso arco celestial, a sabedoria milenar indiana e a harmonia do espaço europeu prenunciam um novo conteúdo/contexto para a dança-teatro.

Entre oriente e ocidente, Deus e seres humanos, uma beleza tão surpreendente nos faz relembrar de uma identidade futura que transcende os limites do espaço e do tempo.

 

"We bow to Shiva, whose
[Angika] body is universe, whose
[Vachika] speech is the universal language, whose
[Aharaya] ornaments are the Moon and the Stars".
(Prayer by Saranga Deva)
"Nós nos curvamos para Shiva, aquele cujo
[Angika] corpo é o universo, aquele cuja
[Vachika] fala é a linguagem universal, aquele cujos
[Aharaya] ornamentos são a Lua e as Estrelas".
(Prece de Saranga Deva)
 

PPGAC-UFBA Programa de Pós-graduação em Artes Cências da Universidade Federal da Bahia - Brasil

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